existem milhares de coisas que eu gostaria de te falar agora, mas parece que não sei começar. logo eu, que sou tão boa com as palavras, não sei como começar nada pra você. e eu acabei de perceber que de todos os erros que já cometi na vida, esse foi o pior deles: eu nunca comecei nada pra você. e talvez ninguém tenha começado. demorei pra perceber o quanto sou egoísta, demorei pra perceber que o fato de eu ter tudo sempre te tirou algo e, principalmente, demorei pra perceber o quanto me dói te ver em qualquer situação desconfortável. sempre doeu.
desde criança, desde que a gente dava uma de modelo naquele palco do menck, desde que a gente catava ciriguela em cima da casa de vovó, desde que eu te ouvia cantar aquela banda insuportável da Claudia Leitte (e te odiava por isso, porque Hannah Montana sempre foi melhor que Claudinha), sempre me doeu te ver sendo jogada de um lado pro outro. sempre me doeu não poder dividir meu lar com você. sempre me doeu o fato de que, depois de uma tarde inteira brincando com a minha irmã, ela ia pra casa dela. doía o fato da sua casa não ser a minha. e doía mais ainda o fato de que você nunca quis que fosse. eu nunca consegui te fazer se sentir em casa...comigo, com papai. parecia que quanto mais a gente tentava te incluir mais a gente te excluía. e na cabeça de uma criança, isso nunca fez sentido.
e é como você me disse uma vez (me perdoe por nunca ter esquecido isso, embora você já deva ter abandonado essa lembrança): "você é minha irmãzinha". então...eu ainda sou sua irmãzinha. legal, né? não importa quanto tempo passe, eu sempre serei sua irmãzinha. eu sempre serei uma criança. eu nunca vou entender as coisas pelas quais você passou, porque tive uma criação totalmente diferente, mas eu queria te dizer que discordo de você.
eu discordo de você porque uma vez, quando você abandonou a faculdade e eu fui tentar te fazer não desistir, você me disse que eu era mais forte que você. eu nunca fui mais forte que você, sis. eu nunca precisei ser. você é a pessoa mais forte que eu conheço e eu quero que você entenda agora, que sou só eu aqui. que não é a vó, que não são meus pais, que não é a sua mãe...sou só eu. somos só nós duas. eu e você contra o mundo, lembra? promessa de dedinho. mas nunca foi bem assim.
nós não tivemos essa chance.
e eu sempre, todos os dias da minha vida, vou me perguntar porquê.
tenho raiva mas não sei de quem, fico triste mas não sei com quem...a verdade é que eu não sei quem nos privou disso, de uma infância -completamente- juntas, não sei quem nos privou de falar "boa noite" uma pra outra todo santo dia, não sei quem nos privou de ver Barbie e outras coisas de criança. eu não sei quem te privou de ser criança, eu não sei quem me privou de ter uma irmã. eu não sei a quem culpar, mas eu quero culpar alguém. e eu odeio essa pessoa, seja ela quem for.
eu sei que você ainda não entendeu o real motivo de eu estar escrevendo tudo isso, e não deve estar entendendo nada porque esse texto tá totalmente sem coerência, mas é que eu to tão nervosa e chorando tanto que eu não estou muito preocupada com regras de gramática, mas se você me prometer -de dedinho- que vai ler até o final, eu prometo te explicar.
eu queria que você fizesse uma viagem agora (como uma daquelas que a gente fez, onde eu te passava músicas e a gente criava memórias incriveis). tente se desligar de tudo que está ao seu redor, coloque musica se necessario e se lembre dos melhores momentos que você já teve comigo. se lembre de quando nós (principalmente você) ouvimos horrores por fazer brigadeiro de madrugada na Chapada. se lembre de quando nós nos perdemos em São Paulo e demoramos mais de uma hora pra voltar pra casa. se lembre dos meninos do rancho (você acredita que aquele Matheus ainda puxa assunto comigo?). se lembre de quando eu te maquiava, te emprestava roupa. eu sempre adorei te fazer de modelo. se lembre de Santa Cruz. e daquelas malditas pombas da pracinha. se lembre da dona redonda e de quando você me acobertou pra fugir com aquele hippie otário. se lembre de coisas que eu provavelmente não me lembro agora. se lembre de tudo que você conseguir. agora feche os olhos bem rápido. as memórias meio que somem. é como se você me perdesse em uma fração de segundos.
é exatamente isso que eu estou sentindo agora. e eu nunca senti isso na vida. não em relação a você. e dói mil vezes mais do que perder outra pessoa.
eu vou te contar uma coisa agora, que eu nunca contei pra ninguém, mas em junho de 2016 eu tive uma crise de depressão. absurda. eu passei por coisas em 2015/2016 que ninguém imagina, que ninguém sequer consegue pensar, coisas que EU jamais imaginaria que ia passar e essas coisas, em junho de 2016, se uniram e se tornaram uma coisa só. e isso quase me matou. você pode perguntar pro papai se não acreditar, mas um dia eu cheguei em casa e depois de chorar por 3 horas seguidas, a unica frase que eu consegui soltar foi "eu quero a minha irmã". e pareceu tão errado. porque eu senti como se não tivesse irmã. porque eu me senti absolutamente sozinha e nem você, que é minha irmã, estava comigo. e eu não tive coragem de correr pra você, porque eu me senti abandonada até por você. e por um dia, eu pude sentir o que eu sei que você sentiu em boa parte da sua vida (me corrija se eu estiver errada) e foi nesse dia que eu discordei de você. droga, eu nunca fui mais forte que você. eu só soube lidar com situações que você nunca passou e vice-versa. nós somos completamente diferentes e isso não te faz mais forte do que eu, mas também não me faz mais forte que você. nós passamos por muita merda em 17 anos. e não tivemos uma a outra pra nos apoiar. e esse foi o pior pecado que já cometeram com a gente. eles nos meteram no meio dessa merda toda. e nós NUNCA tivemos culpa.
voltando ao motivo inicial desse texto: eu estou sentindo como se tivesse perdido você.
sabe, eu sei que nós nunca fomos próximas, e que muitas vezes eu quis te matar e vice-versa, mas parece que não importa quantas brigas ridiculas e quantos afastamentos, era só resolver uma viagem que nós voltariamos a ser as mesmas. eu sempre senti como se no final de tudo, eu fosse estar rindo com você. mas isso acabou. eu não sinto mais isso. agora, no final de tudo, você estará casada. você está indo para uma viagem sem mim. e eu estarei sozinha. mais uma vez. e por um bom tempo dessa vez.
sabe, quando eu descobri, a primeira coisa que eu fiz foi rir. achei que era mais uma graça, que você ia abandonar a ideia como abandonou a faculdade, mas aí me falaram que você vai embora, que você vai morar com ele. e eu quis te perguntar porque. eu sempre aprendi que, para se casar com alguém, você precisa ter um bom tempo com essa pessoa e acima de tudo, ama-la. me explica, o que você tá fazendo? eu sei que talvez seja por amor, mas eu sei que 90% disso é pra fugir daqui. e eu não quero, eu nunca quis, que você precisasse fugir daqui. eu nunca quis que você precisasse crescer tão rapido, que você precisasse constituir família tão rápido. eu nunca quis que você tivesse outra familia além da minha. nunca quis não fazer parte.