Eu não sei nada sobre Moda. Não sei se utilizamos letra maiúscula ou minúscula na palavra, não sei muito sobre design e a única coisa que sei sobre consultoria é que a Moda deveria ser nosso espelho pro mundo. Nos mostrar, nos expôr, como se o que vestimos fosse nossa própria galeria de arte. E eu também nem sei muito sobre arte. Sei que é importante, entendo de tudo o que estudei na faculdade um pouco, mas não conseguiria manter dez minutos de conversa sobre arte contemporânea e também não consigo te dizer a diferença entre o mictório de Duchamp e as flores de Van Gogh. Conheço Botticceli, óbvio que conheço, mas apenas porque fui obrigada, por uma ex amiga que me pagou pra fazer o trabalho de faculdade dela, a escrever trinta linhas sobre a conexão entre Vênus e o feminismo. Do que se tratava o quadro, afinal, nem sei, mas consegui elaborar uma teoria na qual Vênus significava todo o poder de uma mulher, o qual ja nasce com ela. Se nascemos como Vênus e sempre fomos puras e "muito para este mundo", não sei, até porque, se for pra falar de mim mesma, teríamos que começar a falar sobre botecos de esquina e looks encontrados num brechó da Bolívia. Esse é meu nível de inocência e purificação. Nada muito poético, nada como manda o figurino. Figurino esse que estudei (mal e porcamente) dois anos na faculdade e não consigo defender com unhas e dentes porque não me sinto inserida nessa sociedade de teatrólogos e diretores imbecis com a barriga cheia de cerveja falando sobre o desvalorizado mundo de uma arte elitista que ninguém, além de músicos de anos atrás e professores de história, conhece. Essa arte não chega lá em cima, no topo do morro que nós só conhecemos porque vimos a Bruna Marquezine subir numa novela, usando uma mini-saia e um top cor-de-rosa neon. Naquela novela, a Bruna brilhou, o morro não. A favela não. Tá cheio de pretos e pardos e brancos dentro daquele lugar e se tu fizer uma pesquisa, de 5, 4 nunca ouviram falar da Vogue e 1 acha que é uma extensão da Veja. E não é ignorância não! Não se deve chamar de ignorância a falta de oportunidade que todo um povo teve de conhecer o mundo fora do barulho e das luzes da favela. Nunca se deve ofender o lugar de ninguém e, se aqui cabe minha opinião, existe muito mais cores e arte e Moda dentro de um povo que se vira pra pagar as contas e ainda sorrir no fim de semana do que dentro de uma galeria de paredes brancas e quadros rabiscados sem título que ninguém entende. Na elite, conhecemos a neutralidade e a elegância. Na população normal e marginalizada, conhecemos os artistas e a verdade. Verdade essa que jamais será vista em TV's e revistas de Moda, por mais fiel que seja a adaptação para o live action. Se não é apetitoso para a elite saber o que acontece lá em cima, que dirá contar e aplaudir. Que os aplausos fiquem para o ballet do Theatro Municipal de São Paulo que vai se apresentar na terça-feira a noite ou para a performance de rua da General Osório as três da manhã, depois que todo mundo já está pra lá de Bagdá usando a tendência da semana e ouvindo funk carioca e se sentindo parte de toda aquela cultura. Cultura desprevenida e sem rastro de culpa ou consciência de classe. Cultura essa a qual eu participo, você participa e todos nós enaltecemos no facebook no fim do dia, porque, afinal, a culpa não é nossa. A culpa não é minha, que batalho para permanecer no meu emprego dos sonhos que só existe em meus devaneios de estudante. A culpa não é minha, que estudo em uma faculdade com goteiras e sem professores comprometidos com o que ensinam. E quem sou eu pra julgar esses professores, se não conheço e não me interesso por metade do que eles falam? Quem sou eu pra te dizer o que pensar depois de me ler reclamando de tudo o que você faz por uma coluna imaginária inteira? Quem eu sou pra ditar qualquer coisa na sua vida? Quem somos nós e por que nos achamos grandes entendedores do que quer que estejamos vendendo? O que nos faz acima da garota que costura suas roupas em casa e lê a Vogue online até dormir, porque é o que ela pode pagar? Quem sou eu pra te dizer o que vestir, se estou escrevendo tudo isso em um pijama de cachorrinho?
Eu não preciso te ditar nada, nem te falar abobrinhas sobre Moda que vão encher sua cabeça com sonhos de uma revolução que não vai acontecer nesse mundo, afinal, você já fez tudo isso sozinho depois de me ler.